os dias do minotauro
"porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
e reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor"
Sophia de Mello Breyner Andresen
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Quinta-feira, Maio 10, 2007
Dia recorrente
Ter dentro um bicho que salta. Um bicho vivo que come, que morde, que rói, que gasta. O lugar fechado de um peito, caverna escura, recôndita, lugar insuficiente para um bicho de membros enrolados, entorpecidos, raivosos. O bicho morde e come e engorda e inquieta-se - quer crescer. Quer crescer e não pode. O bicho acorda em momento incerto, rasga a pele num lugar de fragilidade - de ferida - onde o tecido se deslaça, semi-translúcido, como o linho roto, poído, de uma saia muito usada. Salta e abocanha, com dentes gigantescos, cada naco de gente, de mundo, ao alcance dos seus braços esfomeados. Ter dentro um bicho que salta, rebelde, e destrói. Depois recolhe triste, mudo, encolhido, à escura caverna onde habita. Prega-se às paredes do peito como um molusco. Finge-se de morto. Não se dá por ele durante muitas noites a fio. Ouve-se apenas, quando o silêncio é denso, uma respiração pesada como o som de pedras a rolar montanha abaixo.
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22:16 |
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Domingo, Fevereiro 25, 2007
Dig a hole (Candy, Candy, Candy, I can't let you go)
I've had this hole in my heart for so long
posted by saturnine
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03:42 |
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Sábado, Janeiro 14, 2006
Dia incompleto
porque é que tão cedo, e tão de súbito, tudo me falta?
posted by saturnine
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02:17 |
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Quarta-feira, Janeiro 11, 2006
S.
repetidas vezes te neguei por não querer o tempo que nos excede. e que fazer agora do querer-te, quando o tempo me nega o teu abraço?
posted by saturnine
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03:38 |
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Terça-feira, Janeiro 10, 2006
confesso:
aqui, desconheço-te. a enfermidade da sede inflamava a mentira da água verde. enquanto isso, também nesta pedra de peito se engendrava uma mentira: I will miss you when you're across the sea. tu, que não me deixarias demorar nas sombras muito mais que meia hora. o abandono era o nó, não a sede. cortado o nó, promete-me que não me faltará o teu abraço.
posted by saturnine
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02:19 |
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Segunda-feira, Janeiro 09, 2006
?
o que eu queria saber é porque me desamas tu, porque foi tão grande mentira essa água verde dos teus olhos, porque me morre a sede na garganta em ferida.
posted by saturnine
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03:15 |
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Domingo, Janeiro 01, 2006
posted by saturnine
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17:41 |
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Segunda-feira, Dezembro 12, 2005
das palavras proibidas
amo-te. a ti e a essa água verde interdita na tua boca, esse lugar onde a palavra corpo adquire substância e sentido.
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13:51 |
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silêncio, e depois.
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13:48 |
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Domingo, Setembro 25, 2005
It's not even closing time and already stars are falling out of the sky *
acomoda-se o mundo à estreiteza dos dias. o meu velho demónio espera-me na garganta da terra. a memória do amargo fruto ainda ácida na boca. o outono constrói-se subitamente de um rumor de desejos falhados e folhas secas. antecipa-se em mim o frio que há-de vir, o degredo das noites longas, até que as horas se diluam.
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16:39 |
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(...) and miles to go before I sleep
Whose woods these are I think I know.
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15:37 |
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Segunda-feira, Setembro 12, 2005
O trágico habita na impossibilidade do não-ser
Nietzsche, instigado pelo paradoxo angustiante do encarceramento numa perspectiva finita de tempo e matéria, descreve uma lenda onde o rei Midas persegue o velho Sileno pela floresta. O rei queria saber qual era, entre todas as coisas, a que o homem deveria preferir antes de tudo, algo inigualável. Quando, por fim o rei alcaçou Sileno...
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23:44 |
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Domingo, Setembro 11, 2005
precipita-se o verão para as margens escuras da noite. o meu demónio, velho e cansado, aguarda paciente na distância. quantos quilómetros de mundo percorrido, sem que os seus olhos repousem em alguma fonte fresca. dormira talvez, onde o seu corpo se esqueceu do que dói. hoje encontro-o, de semblante magoado, arrastando as correntes sobre o tempo suspenso. é a terra escura que nos chama, e esta criatura relembra-me que habitamos as profundezas.
posted by saturnine
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02:22 |
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Pablo Picasso Minotauro
Lhasa Soon this place will be too small
into the labirynth
Julho 2004
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